Roteiro Literario

 

Roteiro Literário

 

Destinos

(Homenagem à Carlos Drummond de Andrade)

 

Cena 1. Quarto de Maria/ Apto/ Int/ Dia.

Imagem de fotos e álbuns de fotografia antigos espalhados sobre a cama.

Voz em Off declama o poema "Quadrilha".

Voz em Off:

"João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim

que amava Lili que não amava ninguém.

João foi para os EUA, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia.

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história."

Cena 2. Quarto de Maria/ Apto/ Int./ Dia.

Maria, uma mulher muito bonita, jovem, por volta dos seus 26 anos, loira, magra, altura mediana, casualmente vestida, mas bem vestida. Jornalista bem sucedida. Mora sozinha e tem sua casa bem arrumada, com uma decoração moderna.

Em seu quarto uma cama de casal arrumada com almofadas e bichos de pelúcia, fotos em um mural, velas numa estante, objetos coloridos e modernos em sua decoração.

Maria sentada em sua cama de casal, com várias fotos e álbuns espalhados na sua frente.

Pega uma das fotos, olha pensativa e fala com a câmera.

Maria: É... éramos muito amigos... desde o tempo da escola... inseparáveis!

Íamos a todas as festas juntos, estávamos grudados o tempo todo. Crescemos juntos, passamos por milhares de experiências juntos. Era uma amizade muito especial, nunca vi durar tanto tempo assim uma amizade desse tipo, com tanto tempo de convivência juntos.

Mas de repente uma reviravolta mudou completamente nossas vidas. Uma loucura... ninguém imaginava...

Essa foi a última vez que estivemos todos juntos.

Mostra para a câmera a foto dos seis amigos sentados na mesa de um bar, brindando.

Maria: Ainda me lembro como se tivesse sido ontem à noite...

Pensativa,olha para a foto.

Cena 3. Mesa do Bar/ Int./ Noite.

Num bar, sentados numa mesa redonda, um lugar bem arrumado, não muito chique, mas bonito, seis amigos, todos por volta dos 26 anos, na mesma posição da foto. Brindando.

João: À nossa amizade!

Teresa: Que durará para sempre!

Raimundo: Como em nossos velhos tempos de escola... Lembram-se?

Maria: Lembro-me muito bem que você não largava do meu pé!

Risos

Imagem congela. Maria vira-se para a câmera, a imagem continua congelada, somente Maria está em movimento.

Maria: Mas quem era mesmo o apaixonado da turma era o João... coitada da Teresa... passou por maus bocados com ele.

Maria vira-se novamente para a mesa, a imagem descongela e os seis amigos retomam a conversa.

Teresa, uma jovem meio tímida, bonita, morena, vestida mais recatada, mais retraída que os outros amigos, olha para Raimundo com cara de apaixonada enquanto ele fala.

Raimundo: Nós éramos um problema, porque enquanto eu mandava buquês e buquês de flores para tentar conquistar a Maria, ela tava caidinha pelo Joaquim. E o cara nem aí...

Imagem congela. Maria vira-se para a câmera e fala.

Maria: Não era nada disso...

Maria volta-se para o grupo e a imagem descongela.

Joaquim: Eu tinha um outro amor.

Joaquim, um rapaz meio disperso, com ar meio de maluco, uma pessoa "normal", nem feio nem bonito, olha para Lili com uma ar meio psicótico.

Todos meio constrangidos pelo comentário de Joaquim, tomam um gole de suas bebidas.

Lili, uma moça "normal", nem tão bonita quanto suas amigas, bem vestida, porém simples, sem extravagância, meio sem jeito, meio que ignorando Joaquim, que a encara, puxa papo.

Lili: E na formatura... a única vez que vi Teresa de porre. Foi muito engraçado.

Teresa: (rindo) Engraçado porque você não estava lá em casa no dia seguinte pra ver o meu estado. Passei muito mal...

Risos

Teresa: Mas sempre nos divertimos muito juntos, né!? Desde o colégio juntos... deve ser raro isso!

Lili: Se é...

Todos ficam pensativos. Ficam meio pensativos por saberem que é uma época que não voltará, que traz saudades. Porém, não é um momento triste.

Cena 4. Quarto de Maria/ Apto/ Int./ Dia.

Maria está sentada em sua cama, ainda na frente de suas fotos, pensativa.

Olha a hora em um relógio em cima de sua mesa de cabeceira.

Maria se levanta da cama e vai em direção à cozinha falando para a câmera.

Maria: Foi aí, nessa hora, que nosso mundo começou a desabar. Veio a "bomba" de João... nunca achamos que algo poderia nos separar. Pelo contrário, achamos que continuaria tudo do mesmo jeito sempre, que nossa amizade era maior que tudo e nada nos separaria.

Maria chega à cozinha e começa a fazer café.

Cena 5. Mesa do bar/ Int./ Noite.

João, um jovem muito bonito, cabelos castanhos lisos, muito bem vestido, de terno, acabara de sair do trabalho, uma pasta de couro, rico, bem sucedido, playboy, muito animado, chama o garçom e começa a anunciar a novidade.

João: Gente! Gente! Preciso contar pra vocês... tenho uma novidade incrível! Garçom! Por favor, trás uma garrafa de Champagne!?

Maria: Champagne? Por quê? O que vamos comemorar?

João: Bom... aproveitando que estamos todos reunidos... acho uma boa hora pra contar à vocês, mesmo porque será uma fase nova à todos... que provavelmente irá mudar nossas vidas...

Joaquim interrompendo João, fala.

Joaquim: Vai me dizer que vai casar!?

Teresa olha aflita para João. Todos ficam meio apreensivos.

João: Não... imagina, eu... casar? Até parece que vocês não conhecem o amigo que têm!

Raimundo: Esse é o cara!!! Assim que se fala!!!

Risos

Teresa: Mas fala logo, o que foi?

João: Estou indo para os EUA.

Todos ficam em silêncio.

Cena 6. Mesa do bar/ Int./ Noite.

Chega o garçom com o Champagne. Todos se entreolham. Raimundo preocupado em perder seu companheiro de festas, bebe seu copo inteiro de uma vez.

Ficam todos esperando alguma reação de alguém ou João continuar. Todos muito aflitos e apreensivos.

O garçom serve o Champagne.

Maria, agitada, fala com um sorriso nervoso.

Maria: De férias, né!?

João: Não... fui contratado por aquela empresa de informática gigantesca que tinha comentado noutro dia com vocês!(fala todo animado)

Fui contratado! Fui contratado!!! Não é demais?!

Todos levam um susto, não acreditando na possibilidade de separação do grupo de amigos.

Todos ficam mudos por alguns segundos, olhando para João, sem muitas reações.

Maria tenta quebrar o clima tenso de preocupações que começou a surgir.

Maria: Mas é uma ótima notícia! Nem acredito... temos que comemorar! Não é sempre que um amigo nosso é contratado por uma empresa importante, ainda mais no exterior. Parabéns, João... estamos todos muito orgulhosos de você! Não é, gente!? Um brinde!!!

Joaquim: Ao sucesso de nosso grande amigo, João!!!

Todos ficam um pouco menos apreensivos. Brindam com suas taças já cheias.

Cena 7. Mesa do bar/ Int./ Noite.

Todos põem seus copos na mesa. Chega o garçom com um aperitivo.

Raimundo, um cara bem arrumado, desempregado, vive na noite, em boates, bares, vive do dinheiro do pai, porém não é rico, gosta de viver um pouco de aparência, se espelha em seu grande amigo João. Bebe muito. Muito agitado, vira outro copo e fala.

Raimundo: Mas você vai quando? Não é já, né?! Ainda tem um tempo pra curtirmos juntos, não é?!

Joaquim: Essas coisas demoram, ainda vamos ter outras noites como essa antes da viagem, não é!? Ainda temos muito tempo todos juntos!!!

João com um ar sério, preocupado, e reparando na preocupação dos amigos, sabendo que dali pra frente as coisas mudariam, fala.

João: Partirei dentro de alguns dias... não tenho como mudar isso... e não posso perder essa chance, esperei tanto tempo por isso, não posso deixar escapar assim...

Silêncio

Todos com ar de indignados, meio descrentes ainda.

Joaquim: Mas não pode ser...

Lili: Assim de repente???

Raimundo: E eu? Como fico sem meu parceiro!?

Teresa: Não estou acreditando... nunca imaginei que um dia um de nós fosse embora...

Silêncio. Todos meio cabisbaixos.

Maria: Gente, não é também o fim do mundo... nosso amigo nos dá uma notícia dessas, que é a chance da vida dele, e nós ficamos tristes?! Não acham que estamos sendo egoístas?

Joaquim: É que é o fim de uma "Era"!

Maria: Mas então... temos que pensar que é uma "Nova Era" que começa! Mudanças às vezes são boas...

Joaquim: (meio deprimido) Nem sempre...

João: Calma gente! Obrigado Maria... eu entendo as preocupações... mas também quero dizer à vocês, que posso estar só um pouco mais longe, mas sempre estarei presente de alguma forma na vida de todos! E sempre que possível, presente físicamente também!

Então vamos aproveitar o momento e curtir o tempo que temos juntos!

Raimundo vira mais um copo de bebida.

Todos ficaram meio pensativos. Mas logo brindaram de novo.

A imagem se afasta, mostrando o resto do bar, enquanto os seis amigos continuam numa conversa animada.

Cena 8. Cozinha da Maria/ Apto/ Int./ Dia.

Maria encostada na bancada da pia, ao lado da cafeteira, espera o café ficar pronto. Fala para a câmera.

Maria: Mas até aí... tudo bem... nos divertimos muito, a noite foi ótima... dali uns dias João foi embora... mas tá lá, se dando muito bem!

O café fica pronto, Maria vira-se para a cafeteira.

Põe o café numa caneca. Encosta-se novamente na bancada.

Segurando a caneca quente fala.

Maria: Mas todos ficaram muito felizes por ele. Afinal é nosso amigo tendo sucesso!

O problema mesmo foi o que aconteceu depois que fomos embora do bar...

Dá um gole no café.

Maria: Raimundo bebeu demais naquele dia... acho que foi a idéia de que não teria mais a companhia do João pras suas festas... sei lá... fez com que passasse dos limites.

Com ar de tristeza, dá outro gole no café.

Cena 9. Cemitério/ Ext./ Dia

Imagem dos cinco em volta do túmulo no cemitério. Teresa chorando compulsivamente, debruçada sobre o túmulo. Todos muito abalados, chorando, se abraçando.

Voz em Off de Maria

Maria: (Off) Pois é... na volta pra casa sofreu um acidente.

Morreu na hora! Foi horrível...

Cena 10. Cozinha de Maria/ Int./Dia.

Maria ainda encostada na bancada da pia, segurando a caneca, fala para a câmera, balançando a cabeça fazendo sinal de reprovação.

Maria: Teresa que ficou na pior... ela sempre foi muito recatada e tímida demais pra demonstrar sua paixão por Raimundo... depois que ele morreu...

Maria toma mais um gole do café.

Fala para câmera de novo. Close em Maria.

Maria: Virou freira! Pois é... que coisa, né... freira... Mas ela está feliz assim!

Cena 11. Igreja/ Int./ Dia.

Imagem de Teresa ajoelhada na igreja, rezando.Vestida de freira.

Imagem de Teresa muito feliz cuidando de crianças num berçário.

Voz de Maria em Off.

Maria: (Off) Ela entrou em depressão profunda... nunca vi... mas agora está super bem.

Decidiu dedicar-se à Deus e aos necessitados... Já que não pôde ter o Raimundo.

Cena 12. Quarto de Maria/ Apto/ Int./ Dia.

Maria vai em direção ao quarto, falando. Põe a caneca em cima do criado-mudo. Senta-se novamente em frente das fotografias espalhadas. Sempre falando com a câmera.

Maria: O Joaquim, coitado... esse, sim, pirou de vez...

Maria remexe nas fotos, pega uma foto de João, uma de Raimundo, uma de Teresa e uma do Joaquim. Põe uma do lado da outra. Fica admirando. Fala pra câmera.

Maria: Ele era muito ligado aos amigos, éramos a vida dele... Joaquim era meio doidinho, meio excêntrico, do tipo... pirado mesmo! Mas eu era apaixonada por ele...

O Joaquim nunca bateu muito bem mesmo não, sempre no mundo da Lua, ou melhor, no mundo dele!

Eu era louca por ele, na verdade… mas ele não me dava a menor bola, era mesmo apaixonado pela Lili. Mas ela não queria saber de ninguém, muito menos do Joaquim.

De repente, arrumou um cara aí… Pois é, aí o Joaquim pirou de vez!

Maria pega a foto de Joaquim e fica pensativa admirando por um tempo. Corre uma lágrima de seu olho.

Maria põe a foto em cima da cama de novo. Abre a gaveta do criado-mudo, pega um envelope grande.

Mostra o envelope para a câmera e fala com um pouco de raiva.

Maria: Foi por causa disso! Por causa desse envelope! Maldito envelope!

Joga o envelope longe. Fala para a câmera.

Maria: Por causa desse envelope que o Joaquim se matou!

Logo que Lili nos comunicou que iria casar e nos mandou esse maldito convite, Joaquim morreu!

Cena 13. Cemitério/ Ext./ Dia

Imagem de Maria, Lili e Teresa, as três em volta do túmulo.

Maria sendo amparada por Teresa. Lili de pé ao lado.

Voz de Maria em Off.

Maria: (Off) O João não pôde vir para o enterro, sobraram só as mulheres. Eu, a apaixonada por ele... Lili, a paixão dele. E Teresa... a freira!

Cena 14. Quarto de Maria. Int./ Dia.

Maria levanta-se para pegar o envelope que atirou longe. Pega-o.

Pega um vestido pendurado na porta do armário e joga-o em cima da cama.

Pega o telefone em cima do criado-mudo.

Com o envelope numa mão e o telefone na outra, fala para a câmera.

Maria: É o convite de casamento de Lili! Por isso o Joaquim se matou... porque recebeu esse convite. Aposto que foi isso!Era apaixonado por ela...

Pois é... Lili vai se casar. Com um tal de J. Pinto Fernandes.

Maria sentada na beira da cama com ar de indignada fala.

Maria: Nunca ouvi falar! Aliás, ninguém ouviu falar! De uma hora pra outra, vê se pode...

Maria começa a discar o telefone.

Cena 15. Quarto de Maria/Apto/ Int./ Dia.

Maria anda de um lado ao outro do quarto, com o envelope na mão e falando no telefone.

Maria: Alô!?

Lili: (Off) Oi amiga!

Maria: oi... e aí, preparada pra se casar com J.P?

Lili: (Off) Um pouco nervosa, mas tá tudo certo!

Maria: Tô ligando pra saber se o João veio, afinal!

Lili: (Off) Veio sim, e Teresa também!

Maria: Poxa, que bom... e vai ser a cerimônia simples mesmo, na sua casa,

né!?

Lili: (Off) É... nada demais...

Maria: Então até mais tarde, estarei aí pra conhecer o misterioso J.P!

Lili: (Off) Ok... até mais tarde

Maria: beijo

Lili: (Off) beijo

Cena 16. Quarto de Maria/ Int./ Dia.

Maria senta-se na beira da cama, joga o telefone em cima da cama, pega o vestido, suspira e fala para a câmera.

Maria: É... Lili vai se casar, com o desconhecido J. Pinto Fernandes... João tá lá nos EUA, muito bem obrigado...Teresa...ela é feliz da maneira dela... e eu... bom, vou acabar ficando pra titia... depois que o Joaquim se matou... nunca mais vai existir alguém que nem ele...

Maria abaixa a cabeça. Agarrada com o vestido. Num pulo levanta- se , põe o vestido na frente de seu corpo, se olhando no espelho.

Entra no banheiro em seu quarto. Vira- se para a câmera que a acompanha e da porta fala.

Maria: Bom... mas a vida continua, tenho que me arrumar para o casamento de Lili e J.P. Mesmo porque...vai que ele tem algum amigo gatinho... Nunca se sabe...

Sorri. Fecha a porta.

 

Fim

 

Por: Cecília Delcourt